Hoje é segunda-feira. Alguma coisa começa hoje na vida de muita gente, pelo menos foi o que se prometeu no domingo à noite.
A dieta começa segunda. A academia começa segunda. A partir de segunda eu organizo as contas, respondo aquele e-mail, tenho aquela conversa que estou empurrando há três meses. Escuto essa data com uma frequência que já deixou de me surpreender. E raramente ela tem a ver com preguiça.
A data mágica
Há algo curioso na escolha da segunda-feira. Ela não é só o começo do calendário de trabalho. Ela funciona como uma linha imaginária que divide a pessoa em duas: a que existe até domingo e a que vai existir a partir de amanhã.
É um recurso engenhoso. Enquanto a linha não chega, você não precisa mudar nada, porque a mudança já está agendada. E quando ela chega, se não acontece, sempre há a próxima. O calendário é generoso: entrega uma segunda-feira por semana, indefinidamente.
O que me interessa nessa cena não é a falha em cumprir. É o alívio que a promessa produz na hora em que é feita. Repare: no momento em que alguém diz "a partir de segunda vai ser diferente", algo se acalma. A angústia baixa. E ela baixa antes de qualquer ação, sem que uma única coisa tenha mudado na vida real.
Quando um alívio chega antes do esforço, vale prestar atenção. Ele está fazendo um trabalho.
O que a promessa protege
A promessa protege da experiência de tentar e não conseguir.
Enquanto o projeto está no futuro, ele é perfeito. A dieta que começa segunda funciona sempre, porque nunca foi posta à prova. O livro que vou escrever é ótimo, porque ainda não escrevi a primeira página ruim. A conversa que vou ter corre exatamente como imaginei, porque a outra pessoa ainda não respondeu.
Começar é aceitar que a coisa vai sair menor do que na cabeça. É trocar uma versão ideal por uma versão possível. E para muita gente essa troca é insuportável, não por vaidade, mas porque a versão ideal está sustentando alguma coisa importante: a imagem de si como alguém que ainda pode.
Adiar preserva o "ainda posso". Tentar coloca esse "ainda posso" em risco.
Não é preguiça, é exigência
Quase sempre, quando essa promessa aparece na clínica, ela vem acompanhada de uma autocrítica pesada. A pessoa se chama de indisciplinada, de fraca, de quem não vai pra frente.
Mas ao escutar com calma, o que aparece não é falta de exigência. É excesso. As pessoas que mais adiam costumam ser as que combinaram consigo mesmas coisas grandes demais para começar numa manhã de segunda-feira. Não é "caminhar vinte minutos". É "virar alguém que treina". Não é "mandar um e-mail". É "resolver minha vida profissional".
Quem se cobra assim não está negociando com uma tarefa. Está negociando com um tribunal. E ninguém começa nada com um tribunal olhando.
A autocrítica, aliás, faz parte do arranjo. Ela dá a sensação de que algo está sendo feito. Se estou me cobrando duramente, pelo menos estou levando a sério. Só que a cobrança consome a energia que faria a coisa acontecer, e no fim ela protege a inércia em vez de romper com ela.
A repetição diz mais que o conteúdo
O que mais me chama atenção nesses casos não é a promessa em si. É o fato de ser sempre a mesma cena.
Quando algo se repete com essa fidelidade, semana após semana, ano após ano, a psicanálise entende que não estamos diante de um acidente. A repetição não é falha do plano: ela é o plano, num nível que a pessoa não escolheu e não reconhece.
É aí que a pergunta muda. Deixa de ser "como faço para cumprir na próxima segunda?" e passa a ser outra: o que essa cena, exatamente como ela é, está sustentando na minha vida?
Às vezes sustenta uma lealdade antiga. Conheci histórias em que ir para a frente significava, sem que ninguém dissesse isso em voz alta, ultrapassar um pai que não conseguiu, ou deixar para trás uma mãe que ficou. Às vezes sustenta uma identidade: a pessoa que está sempre prestes a mudar tem um lugar, tem uma história para contar, e a pessoa que mudou perde esse lugar.
Às vezes, e isso é mais comum do que parece, o projeto adiado nunca foi da pessoa. Era do pai, da família, de uma época. E o corpo simplesmente não vai atrás de um desejo que não é seu, por mais que a cabeça mande.
O desejo não obedece a decreto
Essa é talvez a parte mais difícil de aceitar. A gente cresce achando que basta decidir. Que a vontade é uma questão de comando interno: eu decido, logo eu faço.
A experiência de qualquer pessoa adulta desmente isso todo dia. Decidimos muita coisa que não fazemos, e fazemos muita coisa que não decidimos. Existe uma distância entre a intenção declarada e o que efetivamente nos move, e essa distância não se fecha com força de vontade nem com aplicativo de hábitos.
Ela se fecha, quando fecha, por outro caminho: falando. Descobrindo, ao contar, o que estava em jogo naquilo. Percebendo que o projeto que parecia tão importante nunca teve graça nenhuma, ou que ele importa de verdade e o medo era de outra coisa.
Trocar a pergunta
Se você chegou até aqui reconhecendo alguma coisa, não proponho nenhuma técnica. Não tenho um método de sete passos para cumprir a promessa de segunda-feira, e desconfio de quem tem.
Proponho uma troca de pergunta.
Em vez de "por que eu não consigo?", que é uma pergunta que já vem com a resposta embutida e a resposta é sempre uma acusação, experimente esta: o que essa promessa está segurando?
E mais uma, que costuma abrir portas: se amanhã a coisa simplesmente acontecesse, o que na minha vida teria que mudar junto? Quem eu deixaria de ser? Quem ficaria para trás?
Essas perguntas não se respondem sozinhas numa manhã. Elas precisam de tempo e de alguém escutando. É basicamente isso que acontece numa análise: você fala, e no meio da fala aparece o que você não sabia que estava dizendo.
Uma última observação
Se o que você reconheceu neste texto vem acompanhado de um sofrimento que atrapalha dormir, trabalhar ou conviver, procure ajuda. Um processo de análise é um caminho possível, e vale conversar sobre ele. Se houver questões de saúde que precisem de avaliação médica ou de acompanhamento psicológico, esse é o primeiro endereço, e eu sempre oriento nessa direção.
A segunda-feira volta na semana que vem, de todo jeito. A pergunta é se ela vai voltar carregando a mesma promessa ou se, em algum momento, você vai poder olhar para ela e perceber que já não precisa prometer nada.
Se quiser conversar sobre isso, atendo em psicanálise online e a primeira conversa serve exatamente para entender o que você está buscando.