Tem uma frase que ouço, com pequenas variações, há anos no consultório: "eu sei que é bobagem, mas...". E o que vem depois desse "mas" quase nunca é bobagem. É o cabelo que a pessoa parou de arrumar. É o espelho que ela aprendeu a olhar de lado. É a roupa escolhida para desaparecer numa sala. Quando alguém abre a sessão pedindo desculpa por se importar com a própria aparência, eu já desconfio que estamos diante de algo que não é superfície, mas uma ferida que mora bem mais fundo do que a pele.
Quero escrever sobre isso com a calma de quem escuta. Não falo de transtorno, nem de remédio, nem de teste — não é disso que trato aqui, e não é assim que penso. Falo do que a psicanálise me ensinou a ouvir: que o jeito como tratamos o próprio corpo diz muito sobre o jeito como nos autorizamos a existir.
A aparência nunca é só aparência
A psicanálise tem uma desconfiança saudável das palavras grandes. Quando a pessoa diz "é só vaidade", costumo devolver a pergunta: vaidade de quê? Porque o que se apresenta como cuidado com a imagem é, muitas vezes, uma negociação silenciosa com o desejo de ser visto. E ser visto é uma das necessidades humanas mais antigas — antes de qualquer palavra, fomos olhados por alguém. O bebê se reconhece primeiro no rosto que o olha. Lacan deu um nome a esse momento fundador, o estádio do espelho: a imagem que nos devolvem nos constitui antes mesmo de sabermos quem somos.
Então, quando uma pessoa adulta deixa de se olhar, de se arrumar, de se cuidar, raramente é preguiça. É um recolhimento. É alguém que, em algum ponto, deixou de acreditar que merece ser olhado com afeto — inclusive pelos próprios olhos.
A vergonha que se instala no corpo
A vergonha é um afeto curioso. Diferente da culpa, que diz "eu fiz algo errado", a vergonha diz "eu sou errado". Ela não acusa um ato; acusa a existência inteira. E adora se alojar no corpo, porque o corpo é o lugar onde somos vistos.
Escuto isso de muitas formas. A mulher que evita fotos. A pessoa que não tira o boné nem dentro de casa. Quem cancela compromissos quando "não está apresentável" — palavra que sempre me faz parar, porque apresentável para quem, segundo qual tribunal interno? Por trás dessas frases costuma haver uma voz antiga, quase nunca a própria. Um pai que comparava. Uma mãe que media o amor pela boa aparência. Uma escola onde o corpo virou alvo. A vergonha quase sempre é herdada: alguém nos olhou com desprezo e nós engolimos esse olhar como se fosse verdade.
O trabalho analítico, aqui, não é convencer a pessoa de que ela é bonita. Isso seria raso e, francamente, inútil. O trabalho é mais devagar: devolver à pessoa o direito de ter o próprio olhar sobre si, em vez de viver sob o olhar emprestado de quem a feriu.
Cuidar de si é um gesto, não um discurso
Aqui entra algo que aprendi a respeitar muito. A mudança psíquica raramente começa por uma grande revelação. Começa por gestos pequenos, concretos, quase banais. Voltar a cozinhar para si. Comprar a roupa de que se gosta, e não a que esconde. Marcar aquela consulta adiada há meses. Sentar numa cadeira e deixar que alguém cuide do seu cabelo enquanto você, talvez pela primeira vez em muito tempo, não precisa fazer nada além de existir.
Não é à toa que tantas pessoas relatam que algo destravou depois de um gesto desses. O corpo cuidado manda um recado ao psiquismo: você importa. É uma frase dita em outra língua, a língua das mãos e do toque, mas o inconsciente entende perfeitamente.
Penso, por exemplo, nos espaços onde esse cuidado acontece com escuta de verdade. Aqui na região de Guarapari, observei o jeito como a Maysa Neto trabalha no salão dela na Praia do Morro: o atendimento começa ouvindo a cliente. Antes de qualquer produto, há uma conversa sobre o fio, o histórico, o que aquela pessoa quer — a parte de saúde capilar vem com avaliação, cronograma e acompanhamento ajustado a cada visita. Não cito por propaganda, e sim porque sentar naquela cadeira pode ser, para alguém, um gesto concreto de cuidar de si — exatamente o ponto que defendo: cuidado com método e atenção individual, em vez do improviso. Quando alguém é ouvido antes de ser atendido, o gesto deixa de ser consumo e vira encontro. E o encontro, na minha clínica, é onde quase tudo começa a se mover.
Vaidade, narcisismo e a diferença que importa
Existe um medo legítimo por trás de tudo isso. As pessoas confundem cuidado de si com vaidade, e vaidade com narcisismo, como se gostar de si fosse perigoso. A psicanálise, ironicamente, é mais generosa do que o senso comum nesse ponto.
Freud falava de um narcisismo saudável, necessário: uma reserva de amor por si mesmo sem a qual ninguém consegue amar ninguém. O problema nunca foi se cuidar. O problema é o oposto — o esvaziamento, a pessoa que entrega todo o seu valor ao olhar do outro e não guarda nada para si. Essa, sim, fica refém. Vive caçando aprovação como quem caça ar.
O cuidado maduro de si é diferente. Ele não pede plateia. A mulher que faz as unhas porque gosta de olhar para as próprias mãos, e não para exibi-las, está fazendo algo psiquicamente sofisticado: está sendo, ao mesmo tempo, quem cuida e quem é cuidado. Está se tratando como trataria alguém que ama. Isso não é vaidade. É um modo de habitar o próprio corpo sem pedir licença.
Quando o desejo de ser visto deixa de doer
Há um momento, no processo de análise, em que a pergunta muda. A pessoa para de perguntar "será que estou bonito o suficiente?" e começa a perguntar "como eu quero me apresentar ao mundo?". A diferença é abissal. A primeira pergunta é feita de medo; a segunda, de desejo. Uma busca evitar a rejeição; a outra busca afirmar uma presença.
Quando alguém chega nesse ponto, o cuidado com a aparência se transforma. Deixa de ser armadura e vira expressão. A roupa, o cabelo, o gesto de se arrumar passam a dizer algo verdadeiro sobre quem aquela pessoa é, em vez de esconder quem ela teme ser. É um dos sinais mais bonitos de que algo se moveu por dentro: a pessoa volta a se olhar no espelho com curiosidade, não com julgamento.
Um convite, sem promessas
Não quero terminar com uma receita, porque não existe. A psicanálise não promete cura, não entrega fórmula, não troca a sua dor por um manual. O que ela oferece é um espaço onde o "eu sei que é bobagem, mas..." pode ser levado a sério — onde a vergonha encontra palavra, e a palavra, com o tempo, costuma encontrar um pouco de alívio.
Se há algo que eu gostaria de deixar com você é isto: cuidar de si não é fraqueza nem futilidade. É um ato de fé na própria existência. Às vezes começa numa sessão de análise. Às vezes começa numa cadeira de salão, num passo pequeno de cuidado com o corpo, num gesto que sussurra "você merece". O caminho de volta para si raramente é uma linha reta. Mas costuma começar com a coragem mínima — e enorme — de se tratar bem.