Tem uma cena que se repete no que as pessoas me contam. O corpo está cansado, o dia foi longo, a cama enfim recebe o peso de quem só quer descansar — e então, no escuro, alguma coisa se acende. A cabeça, que ficou o dia inteiro adiada, resolve trabalhar justamente agora. Volta a conversa que não terminou, o e-mail que faltou responder, a frase que alguém disse e ficou atravessada. O relógio avança e o sono não vem.

Escrevo sobre isso porque a insônia é, hoje, uma das companhias mais silenciosas e frequentes de quem chega ao consultório. E porque ela quase nunca fala de sono. Fala de outra coisa.

O dia que invadiu a noite

Vivemos um tempo que declarou guerra às pausas. A tela acende ao lado da cama, as notificações não conhecem horário, o trabalho segue no bolso mesmo depois de encerrado. Fomos convencidos de que parar é perder, de que existe sempre algo a mais para fazer, ver, responder. A noite, que já foi o território natural do repouso, virou uma extensão do dia — só que sem a luz que nos organizava.

Não é à toa que tanta gente não consegue dormir. Passamos as horas acordadas nos distraindo de nós mesmos: rolando o feed, preenchendo cada vão de silêncio com algum estímulo. Quando a luz finalmente se apaga, some também a distração. E o que ficou o dia inteiro esperando na fila, sem vez de ser sentido, aproveita a brecha.

A insônia, muitas vezes, é o preço de um dia vivido no automático. É a conta que chega quando não houve, em nenhum momento, espaço para simplesmente estar consigo.

O que insiste em não dormir

Na escuta psicanalítica, a gente aprende a não tratar o sintoma como um inimigo a ser eliminado, mas como um recado a ser lido. A insônia não é só a ausência de sono; é uma presença. Algo insiste em permanecer acordado. A pergunta que interessa não é apenas "por que não durmo?", mas "o que, em mim, não quer se calar?".

Às vezes é uma angústia sem nome, que de dia consegue se esconder atrás da correria e à noite se apresenta nua. Às vezes é um assunto que a pessoa vem adiando pensar — uma decisão, uma perda, um desejo que não ousa se dizer. A cama fica pequena não por causa do colchão, mas porque nela cabe, de repente, tudo aquilo que não coube no dia.

Há também a insônia da vigília, a de quem não se permite descansar. Dormir é, no fundo, um ato de entrega: é abrir mão do controle, confiar que o mundo seguirá girando sem a nossa supervisão. Quem carrega o peso de dar conta de tudo, de não poder falhar, de estar sempre alerta, muitas vezes não consegue fazer esse gesto de soltar. O corpo deita, mas a guarda não baixa.

A repetição que a madrugada revela

Uma coisa que a clínica mostra é que as noites em claro costumam ter roteiro. Não é qualquer pensamento que aparece — é sempre aquele. A mesma cena que se repete, o mesmo remorso, a mesma preocupação girando em círculo. A madrugada tem essa honestidade cruel: ela devolve, sem anestesia, aquilo que a pessoa insiste em não olhar de frente durante o dia.

E é aí que a insônia, por mais sofrida que seja, pode virar uma pista. Se toda noite volta o mesmo tema, talvez ele esteja pedindo passagem. Talvez haja algo ali querendo ser pensado, dito, elaborado — e que, enquanto não encontra palavra, encontra a insônia como forma de existir. O que não é falado no divã, no diálogo, na reflexão, tende a se manifestar de outro jeito. O corpo cobra o que a fala calou.

Escutar em vez de brigar

Não estou dizendo que basta "entender" para voltar a dormir — seria leviano prometer isso, e não é assim que funciona. O que a psicanálise oferece não é uma técnica de sono, mas um lugar para que aquilo que insiste acordado possa, enfim, ser dito a alguém. Muitas vezes, quando um conteúdo encontra palavra e escuta, ele deixa de precisar da madrugada para aparecer.

Vale um cuidado importante: a insônia também pode ter causas clínicas, do corpo, e nem tudo é da ordem do que se sente. Se as noites mal dormidas se repetem e começam a atrapalhar sua saúde, sua disposição, seu dia, procure um médico para investigar — isso é sério e merece atenção. E, se por trás da insônia houver uma angústia, um assunto adiado, um desejo emparedado, aí sim a psicanálise pode ser um caminho: não para fazer você dormir à força, mas para ajudar a entender o que anda te mantendo acordado.

Um convite

Talvez a próxima vez que o sono demorar, em vez de brigar com a cabeça ou fugir de novo para a tela, valha uma pergunta diferente e sem pressa: o que é que você está tentando me dizer? Nem sempre haverá resposta na hora. Mas o simples gesto de escutar o próprio incômodo, em vez de silenciá-lo a qualquer custo, já é um começo.

Porque, no fim, dormir bem tem menos a ver com desligar a mente e mais com fazer as pazes com ela. E há coisas que só se resolvem quando, enfim, encontram alguém disposto a ouvir — de preferência, de dia, com a luz acesa.

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