Nesta semana, a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 foi despachada pelo presidente do Senado para a Comissão de Constituição e Justiça. O texto, aprovado na Câmara e parado desde o fim de maio, prevê dois dias de descanso por semana e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, com uma regra de transição de até quatorze meses.
Não me cabe discutir o mérito legislativo. Mas acompanho o assunto por outro motivo. Quando a folga vira notícia, ela também vira tema de consultório. E o que escuto ali quase nunca é sobre a quantidade de dias.
A pergunta que ninguém faz em voz alta
Há uma pergunta que costuma aparecer depois de algumas sessões, geralmente com um sorriso sem graça: e se eu tiver esse dia e não souber o que fazer com ele?
É uma pergunta desconcertante, porque contraria tudo o que a pessoa diz querer. Ela reclama do cansaço, sonha com o descanso, calcula quantas horas dorme por noite. E, ao mesmo tempo, sente uma inquietação difícil de nomear diante da possibilidade concreta de ficar sem tarefa.
Não penso que isso seja contradição. Penso que são duas coisas verdadeiras acontecendo ao mesmo tempo. O corpo pede parada. E alguma outra instância, que não é o corpo, teme o que a parada revela.
O que o trabalho segura
O trabalho organiza o dia, mas faz mais que isso: organiza a pessoa. Enquanto há tarefa, há resposta pronta para a pergunta sobre quem se é. O expediente oferece uma identidade emprestada, com horário de início e de fim, com hierarquia, com critério de sucesso e de fracasso.
Quando a tarefa cessa, essa moldura cai. E o que aparece no lugar não é necessariamente descanso. Muitas vezes é uma sensação de deriva, de estar solto no tempo sem saber para onde. É comum que a pessoa preencha rapidamente esse espaço: a academia, a série que precisa terminar, a casa que precisa ser organizada, o curso que precisa ser feito.
Repare no verbo. Precisa. Ele atravessa até o lazer.
É isso que eu chamo, aqui, de descanso que virou tarefa. Não é que a pessoa não descanse. É que ela descansa com a mesma gramática com que trabalha, medindo, planejando, cobrando resultado. O domingo tem meta. As férias têm roteiro. E ao fim do período livre chega o balanço: aproveitei o suficiente?
A culpa que sobra
Essa cobrança tem uma economia própria, e ela é curiosa. A culpa por não produzir não desaparece quando o trabalho para. Ela apenas troca de objeto.
No expediente, a culpa é de não entregar. Na folga, é de não aproveitar. Em ambos os casos, existe alguém dentro da pessoa medindo, comparando e reprovando. Esse alguém não tira folga. Ele é a parte da vida psíquica que não conhece feriado.
Na escuta, é comum que essa figura interna tenha história. Ela costuma ter voz, e às vezes até sotaque. Aparece em frases herdadas: quem para, perde; ficar à toa é desperdício; descanso é para depois. São frases que a pessoa ouviu de alguém antes de dizer a si mesma, e que hoje repete achando que são pensamento próprio.
A psicanálise não elimina essa voz. Ela ajuda a pessoa a reconhecer que aquilo tem autor, tem endereço e tem data. E aquilo que tem história pode ser conversado.
O que aparece no silêncio
Há outro elemento em jogo, e ele é mais delicado.
Quando o dia esvazia, coisas voltam. A conversa que ficou pela metade, a decisão adiada, a saudade que a agenda cheia mantinha à distância, a insatisfação com uma escolha antiga. O tempo livre não é neutro. Ele abre espaço, e o que ocupa esse espaço não escolhemos.
Muita gente que se diz viciada em trabalho não está apaixonada pela função que exerce. Está protegida por ela. A ocupação funciona como anteparo contra um encontro que não se quer ter. E, como todo anteparo, ela cobra caro em outra moeda: o corpo, o sono, o vínculo em casa.
Esse é um ponto em que insisto no consultório, porque ele muda a conversa. Não se trata de aprender a descansar como quem aprende uma técnica. Trata-se de descobrir do que se está fugindo quando a agenda enche sozinha.
Duas coisas diferentes
É importante separar duas realidades que a discussão pública costuma misturar.
Uma é objetiva. Quem trabalha seis dias por semana e folga um tem menos tempo, ponto. Nenhuma elaboração subjetiva substitui uma hora de sono ou um domingo com quem se ama. Condição de trabalho é condição de trabalho, e o debate legislativo trata disso.
A outra é da ordem do desejo. Ter mais tempo não ensina ninguém a habitar o tempo. Se a pessoa recebe um dia a mais e o preenche com a mesma pressa, ela não ganhou descanso. Ganhou mais um turno, agora sem salário.
As duas coisas precisam caminhar juntas. Uma se resolve na esfera pública. A outra se resolve devagar, uma sessão por vez, no lugar onde é possível dizer em voz alta que a folga assusta sem que ninguém ache aquilo absurdo.
Uma sugestão modesta
Se você chegou até aqui e reconheceu alguma coisa, deixo uma proposta que costumo fazer no consultório.
Na próxima folga, tente reparar no momento exato em que aparece o impulso de preencher. Não precisa resistir a ele. Só repare. Que horas foram? O que você estava sentindo cinco minutos antes? Que pensamento passou?
Esse intervalo entre o vazio e a pressa de tapá-lo é um dos lugares mais férteis que conheço. É ali que costuma morar o que a pessoa realmente quer, e que a agenda tem sido muito eficiente em não deixar aparecer.
Se esse exercício se mostrar difícil demais para fazer sozinho, é exatamente para isso que serve uma escuta. Falar com alguém que não vá lhe oferecer uma solução rápida costuma ser o primeiro descanso de verdade.