Reparei nisso numa festa de aniversário, dessas de quintal, com criança correndo e caixa de som baixa. Fui apresentado a alguém, dissemos nossos nomes, e a segunda frase da conversa foi a de sempre: "e você, o que faz?".
Respondi. A pessoa fez que sim com a cabeça e, em seguida, ajustou a postura. Não sei explicar bem esse ajuste, mas quem já passou por ele reconhece. É o momento em que o outro reorganiza o lugar que vai te dar na conversa.
Não acho que exista maldade nisso. É uma pergunta prática, um atalho para saber com quem se está falando. O que me chama atenção, na clínica, é o tamanho que esse atalho tomou.
Quando o cargo passa a responder pela pessoa
Muita gente chega ao consultório numa espécie de vertigem depois de uma demissão, de uma aposentadoria ou de uma mudança de área. A queixa manifesta costuma ser financeira, e é real. Mas embaixo dela existe outra, mais difícil de formular: a pessoa não sabe mais como se apresentar.
Ela diz frases como "eu era gerente", no passado, com um constrangimento que não combina com o tom neutro da informação. Ou diz "eu não sou nada agora", e depois ri, como quem tenta desfazer o peso do que acabou de dizer.
A psicanálise escuta essa frase com cuidado, porque ela é exata. A pessoa não está exagerando. Ela está descrevendo a experiência de ter perdido o significante que a nomeava diante dos outros. Enquanto havia cargo, havia resposta pronta. Sem ele, a pergunta "quem é você" fica aberta, e ninguém foi ensinado a sustentar uma pergunta aberta sobre si mesmo.
O trabalho como resposta e como fuga
Há uma diferença sutil entre gostar do que se faz e precisar do que se faz para existir socialmente. As duas coisas convivem, e a segunda costuma se disfarçar de primeira.
Escuto, com frequência, pessoas que descrevem a rotina de trabalho com um vocabulário de salvação. Dizem que o trabalho as organiza, que sem ele desandam, que a segunda-feira as devolve ao eixo. Muitas vezes é verdade. Mas em alguns casos, quando a gente escuta um pouco mais, o trabalho aparece cumprindo outra função: ele preenche o espaço em que apareceria a pergunta que a pessoa não quer ouvir.
Agenda cheia é um jeito eficiente de não ficar sozinho consigo. Enquanto há entrega para hoje, não há tempo para o que ficou pendente na história de alguém. O expediente vira uma resposta antecipada para uma dúvida que nunca chega a ser formulada.
Quando esse arranjo funciona, ninguém procura análise. Ele costuma ruir por acidente: uma doença, um projeto cancelado, uma promoção que não veio, um filho que sai de casa. Aí o silêncio chega sem ter sido convidado.
Herança, não escolha
Outro ponto que aparece muito: a profissão que a pessoa acredita ter escolhido livremente costuma ter história familiar.
O filho do comerciante que jurou nunca vender nada e virou vendedor de outra coisa. A filha da professora que fez direito para não ser professora e hoje dá aula em cursinho. O homem que escolheu a carreira mais segura que existia porque cresceu ouvindo o pai contar como perdeu tudo em 1990.
A psicanálise não trata isso como determinismo. Ninguém está condenado a repetir o roteiro da casa onde cresceu. Mas ignorar que existe um roteiro é a forma mais segura de segui-lo sem perceber. A escolha profissional carrega desejo, sim, e carrega também dívida, lealdade, revanche e reparação. Reconhecer isso não diminui a escolha, dá a ela outro estatuto.
É diferente dizer "eu escolhi esta profissão" e dizer "eu escolhi esta profissão sabendo o que ela responde na minha história". A segunda frase é mais longa e mais livre.
O que a pergunta esconde
Há algo curioso na pergunta da festa. Ela pede uma função e recebe uma identidade. Ninguém responde "eu passo oito horas por dia respondendo e-mails". A pessoa responde "eu sou advogado", com o verbo ser.
Esse detalhe gramatical diz muito. Fazer é atividade, muda, cansa, acaba. Ser é permanência. Quando se troca um pelo outro, o fim de uma atividade passa a ameaçar a permanência da pessoa. É por isso que a aposentadoria, que deveria ser descanso, adoece tanta gente.
Na clínica, não trabalho para convencer ninguém a se importar menos com o trabalho. Seria hipocrisia e não funcionaria. O que aparece, com o tempo, é outra coisa: a pessoa começa a ter mais de uma frase para dizer sobre si. Ela continua sendo advogada, e passa a ser também quem cuida da irmã, quem toca violão mal, quem gosta de conversar sobre política com o vizinho, quem tem medo de dirigir à noite.
Quando existe mais de uma frase, nenhuma delas sozinha carrega o peso todo.
As crianças respondem diferente
Um detalhe que me diverte: pergunte a uma criança de seis anos o que ela faz e ela responde qualquer coisa, menos profissão. Diz que gosta de andar de bicicleta, que tem um cachorro, que perdeu um dente na semana passada.
Em algum momento entre aquela idade e a nossa, aprendemos que a resposta certa é o cargo. Aprendemos, também, que existe uma hierarquia embutida na resposta, e que algumas frases produzem no interlocutor aquele ajuste de postura que descrevi no começo.
Não estou propondo que voltemos a falar de dentes caídos em jantar de trabalho. Estou apenas anotando que a redução aconteceu, que ela foi ensinada e que, portanto, não é natural.
O que eu tenho respondido
Depois daquela festa, comecei a prestar atenção em como respondo. Percebi que digo o que faço rápido demais, quase como quem entrega um documento na portaria.
Não mudei minha resposta, ainda digo que sou psicanalista. Mas comecei a acrescentar coisas que não cabem no cargo, e reparei que a conversa muda de temperatura quando faço isso. O outro também sai do crachá.
Talvez seja esse o pequeno gesto possível. Continuar respondendo a pergunta, sem deixar que ela responda por você inteiro. Porque o dia em que a atividade acabar, e ela acaba para todo mundo, alguém precisa continuar ali.